Condições climáticas atingem 46% da soja e prejudicam produção de leite
Aprosoja/MS considera prematuro falar em perdas; produtores de leite estão recorrendo ao Proagro
O calorão e a estiagem nos principais polos do agro em Mato Grosso do Sul afetaram em cheio a produção agrícola estadual entre 2024 e 2025. Apesar de o principal setor ainda considerar prematuro falar em perdas, ao menos 40% das lavouras de soja foram impactadas pelas condições climáticas.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A estiagem e o calor intenso em Mato Grosso do Sul impactaram severamente a produção agrícola e leiteira entre 2024 e 2025. Cerca de 46% das lavouras de soja foram afetadas, principalmente as plantadas entre setembro e outubro. A produção de leite também sofreu, com perdas de até 40% devido à falta de silagem para alimentar o gado. Produtores recorrem ao Proagro para mitigar prejuízos. A Aprosoja/MS ainda estima uma produção de 13,977 milhões de toneladas de soja, apesar das adversidades. No mercado, a escassez elevou os preços de hortifrutigranjeiros como alface, melancia e melão.
Outra área castigada pelo clima foi a produção de leite. O estado tem pelo menos 24 mil produtores de leite (números do Censo de 2017, o mais recente) e coleta em média 10 milhões de litros por mês. Itaquiraí, Sidrolândia, Ponta Porã e Terenos são os municípios com maior número de produtores.
No Assentamento Itamarati, município de Ponta Porã, 40% da produção foi prejudicada pelo calor e estiagem. Lavouras cultivadas para silagem (alimentação destinada ao rebanho leiteiro) morreram por falta de chuva e as que nasceram tiveram desenvolvimento baixo.
Eder Souza, coordenador da Câmara Setorial Consultiva do Leite e também produtor, afirmou que a maioria dos associados da cooperativa do Assentamento Itamarati recorreu ao Proagro – programa do governo federal que oferece proteção financeira a produtores rurais.
“Dos produtores que contrataram financiamento para bancar o custeio, 90% entraram com pedido de Proagro e os peritos estão fazendo levantamento para entregar a documentação ao banco. Entre os demais, teve produtor que conseguiu colher bem e fazer a silagem e outros não conseguiram documentação para entrar com pedido de seguro”, explicou Eder ao Campo Grande News.
Segundo ele, alguns produtores tiveram prejuízo total com a lavoura destinada à silagem. “Teve produtor que, para plantar cinco hectares, comprou seis sacas de semente a 800 reais cada uma, mais 3.500 reais por uma tonelada de adubo e não colheu nada”, afirmou.
Com alimento insuficiente para as vacas leiteiras, a produção tem queda imediata. “Sem comida para o gado, tem perda na produção e tem perda na reprodução, pois tem que soltar as vacas no pasto, por questão de economia. Sem silagem e com a pastagem comprometida, as perdas na produção de leite chegam a 40%”.
Eder Souza informou que a esperança dos produtores de leite é fazer silagem na safrinha de milho durante. “Tem que contar com a sorte de ter chuva e, na região sul, contar com a sorte de não ter geada”, disse ele. Mesmo se conseguir fazer silagem, o produtor vai precisar usar no inverno, porque não conseguiu fazer estoque no começo do ano.

Soja – Levantamento divulgado nesta semana pela Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul) revela que 46% da área total semeada na safra 2024/2025 foi afetada pelo estresse hídrico. Isso representa 2,091 milhões de hectares dos 4,5 milhões esperados nesta safra.
Conforme o Projeto Siga-MS, as lavouras mais atingidas pela estiagem são as plantadas entre setembro e meados de outubro. Entre dezembro e janeiro, houve redução drástica nas precipitações, especialmente em janeiro, mês crucial para a cultura da soja devido ao período de enchimento de grãos. Até 31 de janeiro, 57% das lavouras estavam na fase de enchimento de grãos.
A colheita da safra de soja alcançou até agora 38% da área acompanhada, o que corresponde a 1,7 milhão de hectares. A região sul já colheu 45,4% da área total, seguida pela região central, com 33,9% da área total e da região norte, com 19,5% de área total colhida.
De acordo com os dados coletados nos últimos dias, todas as regiões do estado estão em pleno desenvolvimento fenológico reprodutivo. No norte, nordeste e oeste, as condições são majoritariamente boas, variando de 72,3% e 90%. As condições regulares nestas regiões variam entre 8,5% e 13,7%, e as condições ruins são de até 14%.
Sudeste, centro, sudoeste, sul-fronteira e sul apresentam condições abaixo do potencial. “Nessas áreas, pode-se encontrar lavouras com até 46,9% em condições ruins. As condições regulares variam entre 18,4% e 40,7% e as boas condições estão entre 19,5% e 49,7%”, informa o Siga-MS.
Previsão mantida – Embora as condições climáticas tenham afetado quase metade dos 4,5 milhões de hectares de soja em Mato Grosso do Sul, a Aprosoja/MS estima produção de 13,977 milhões de toneladas, com produtividade de 51,7 sacas por hectare.
“Mesmo com 46% das lavouras afetadas pelo estresse hídrico, não esperamos produtividade tão ruim quanto à do ano passado, pois os municípios que influenciam a produtividade estão um pouco acima da média registrada anteriormente”, afirmou Gabriel Balta, coordenador técnico da associação.
“Acreditamos que nossa produtividade ficará acima da média estadual do ano passado, que foi de 48,8 sc/ha. Nossa estimativa é baseada na média dos últimos 5 anos, que variou entre 38 sc/ha e 63 sc/ha. Durante esse período, enfrentamos tanto condições climáticas favoráveis quanto secas extremas”, estimou.
Segundo ele, os municípios que mais influenciam a produtividade estadual são Maracaju e Ponta Porã, cada um representando cerca de 8% da área total. Dourados e Sidrolândia contribuem com cerca de 6% cada e Rio Brilhante com 4%.
“A composição do estado é formada por 62% da área produtiva na região sul, 22% na região centro e 16% na região norte. As regiões centro e norte têm pouca influência na produtividade estadual, que será decidida principalmente na região sul, a mais afetada”, explicou.
No entanto, segundo Gabriel Balta, é muito cedo para tirar conclusões sobre a safra. “Até o momento, o projeto Siga-MS já amostrou 175 propriedades. A produtividade final só é consolidada após a obtenção dos dados de área, coletados por sensoriamento remoto, combinados com a amostragem de produtividade, que deve cobrir, no mínimo, 30% da área total cultivada. Esse processo garante maior precisão e confiabilidade nos resultados finais”.
Hortifrutigranjeiros – Na Ceasa/MS (Centrais de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, o reflexo do clima, inclusive em outros estados produtores, é mais um a pesar na alta de preço de alguns produtos. Melão, melancia e alface são os mais impactados, de acordo com levantamento feito pela assessoria.
A caixa de 7 quilos da alface crespa, fornecida por produtores de MS e São Paulo, teve aumento de 9,94% e passou R$ 45 para 50 em relação à semana anterior. A valorização está relacionada à baixa oferta.
Temperaturas elevadas associadas à sensação térmica ainda maior e à retomada das chuvas têm prejudicado o desenvolvimento e a qualidade da produção de folhosas no cinturão paulista.
Segundo os produtores, em Mato Grosso do Sul o calor intenso tem causado estresse térmico nas folhas, fenômeno que ocorre quando a temperatura do ambiente ultrapassa os limites ideais para o desenvolvimento das plantas.
Como consequência, a alface tem folhas murchas, enroladas e queimadas e apresentam manchas marrons. Também fica mais amarga e vulnerável a pragas e doenças. O cenário pode resultar em escassez nos próximos dias.
Vinda de produtores de MS, Goiás, Rio Grande do Sul e SP, a melancia aumentou 11,43%, passando de R$ 3,10 para 3,50 o quilo em relação à semana anterior. Segundo a Ceasa, a valorização é resultado da menor disponibilidade no mercado interno, aliada à demanda mais aquecida devido às altas temperaturas nos principais centros consumidores.
Na Bahia, por exemplo, a oferta segue restrita desde a segunda quinzena de janeiro, reflexo das chuvas intensas em dezembro que afetaram a safra naquele estado. No RS, grande produtor nacional, a disponibilidade é ainda menor devido às chuvas intensas que comprometeram a qualidade interna da fruta. Apesar da boa aparência externa, muitas melancias apresentam manchas brancas causadas por fungos.
Já o melão, produzido na Bahia e Pernambuco e que chega ao restante do país pela Ceagesp (SP), aumentou 6,67% - a caixa de 143 quilos passou de R$ 70 para 75 em relação à semana anterior. O fator climático gerou aumento significativo nas vendas, especialmente em mercados urbanos, onde as frutas de rápido consumo se tornam ainda mais atraentes durante ondas de calor.
Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.