Nicole ganhou Olinda e título de 1ª universitária com cão-guia em MS
Estudante escolheu curso de direito para lutar pelas pessoas com deficiência
A chegada de Olinda, labrador da estudante de direito Nicole Vital, de 19 anos, mudou não só a rotina da jovem, mas trouxe para ela o título de primeira pessoa a ter um cão-guia em uma universidade de Mato Grosso do Sul. Com poucos dias de aula, a presença do animal na sala é motivo de curiosidade e fofura.
Para a estudante o feito traz uma responsabilidade, mas também abre caminhos para outros estudantes cegos. Ela ganhou o cachorro em outubro de 2024 do Instituto Federal Catarinense.
A jornada foi longa e para ter enfim a amiga de quatro patas foi necessário passar por um processo seletivo, que avalia não só o perfil do cão e da futura tutora como a compatibilidade entre eles.
Tirada da aula para desfilar com Olinda pelos corredores, Nicole aparece rápido, andando em linha reta. Ao Lado B ela explica que essa é a primeira vez que tem um cão guiando seus passos e enxergando por ela.
“É uma novidade para mim. É muito diferente andar com ela e com a bengala. Tem o lado da responsabilidade e tem o lado bom. Gostei de ser pioneira. Eu demorei um pouco para me acostumar no começo, mas estou dando tempo. A gente marca o trajeto com petiscos para ela entender onde tem que ir”.
Um dos motivos para ter entrado no curso de direito é justamente lutar pelas pessoas com deficiência através da lei.
Nós somos muitos invisibilizados por causa da deficiência, nos resumem a ela. Eu sou a minha deficiência, mas tão só só ela. Tem mais coisas sobre mim, sou uma pessoa como qualquer outra", explica.
A jovem descreve Olinda como uma cachorra brincalhona, carinhosa, com momentos de euforia [como todo cachorro] e que os cuidados com ela são iguais aos de qualquer cão: ir ao banheiro, beber água, levar para passear, dar amor.
“Quando ela chega na sala, vão para ela, fazem carinho e depois ela fica embaixo da minha mesa. Na hora do intervalo a gente sai. Ela me leva para beber água e dou água para ela por um copo retrátil. Me sinto feliz com ela. Achei que iria ter gente que se incomoda com o cachorro mas ninguém liga, eles gostam”.
Além da faculdade, Nicole gosta de ir ao shopping, passear e quando tem oportunidade ir ao parque de diversão.
Quem fala com orgulho da filha é o pai Ronaldo Souza Vital, de 43 anos. Bombeiro há 20, ele precisou ir até Santa Catarina para fazer o curso de treinador e adestrador de animais. Ele se formou =no mesmo local onde a filha conseguiu Olinda.
O processo acontece por meio de edital público, de acordo com o número de cães formados. São selecionados deficientes visuais da Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Ele explica que após conseguir o cão no Sul trouxe o animal para cá.
“Para gente é uma responsabilidade grande, ela está sendo uma referência. O cão é uma tecnologia assistida, é um cão de serviço, que passa a ser os olhos dela e substituir a bengala. Hoje para nós e pra ela é uma referência. Ela traz uma abertura para que outras pessoas possam conseguir e ir atrás”.
Nicole nasceu com baixa visão, mas perdeu totalmente quando ainda era criança. Desde então a vida dos pais também mudou. Eles tiveram que se readaptar com tudo e a criança aprender a viver.
“Quando a Nicole nasceu ela tinha de 3 a 5% de visão, com o tempo fomos percebendo que ela era uma pessoa com deficiência visual. Até o 5 ano de vida que fomos ter um diagnóstico. Nós buscamos ajuda no Instituto Sul-mato-grossense para Cegos, a gente começou a aprender junto com ela a como é viver sem a visão. Ela aprendeu atividades da rotina, como se locomover, montar mapa da casa. A gente teve que sabe mais pra poder ajudar”.
Lauanna Alcará é a responsável por adestrar e treinar Olinda. O cachorro tem apenas 2 anos e começou o treinamento desde que nasceu. Ela explica que há diversas fases no processo.
“Fizemos toda a fase de socialização, treinamento específico e de adaptação com a Nicole, O filhote nasce e é feito todo um cuidado genético com a matriz apadrinhadora. Depois o período de estimulação sensorial e neurológica para que se desenvolva melhor. Depois disso vai para uma família socializadora, no caso foi a gente [Instituto]. Então a família vai apresentar o mundo para o filhote, levar o mercado, trabalho, pessoas com características diferentes. Ele precisa conhecer o mundo para se familiarizar”.
O treinamento específico de guia dura em torno de 20 semanas e para que a pessoa com deficiência consiga um é necessário, claro, ser selecionada pelo edital e cumprir alguns pré-requisitos como ter 18 anos ou mais, ter orientação e mobilidade e fazer alguma atividade que justifique o guia.
“Ela passa pelo período de instrução para perceber como ser guiada, que vai além de perceber o movimento do cão na alça. O processo de instrução lá leva 4 semanas. No caso da Nicole ela fez 3 semanas e mudou para cá, mudou de rotina. Então é uma readaptação. Para ela [Olinda] ainda não está bem claro alguns locais da universidade. Ambientes amplos são mais difíceis para eles”.
Dono definitivo?
A treinadora pontua que o Instituto mantém a assistência aos selecionados por algum tempo até que todos estejam bem familiarizados com tudo, depois é feito o “desmame”. Nas orientações, caso o profissional identifique descuido com o cachorro, maus-tratos ou negligências ele pode ser retirado da tutora.
“Tem pessoas que estão recebendo o primeiro cão-guia e não sabem como passar para o cão a orientação. Quando usa a bengala ela mesma vai identificar os obstáculos. Se o cachorro não for muito bem orientado e instruído ele pode desenvolver um trauma que lá na frente vai prejudicar. Na fase filhote, eles têm características dentro da ninhada, ele pode ser sensível, ter incômodo na guia. O ideal é que esse cão goste de fazer o trabalho e a função”.
Alguns dos comandas dados a Olinda são além dos gesos, frases como: esquerda, direita, escada, me mostre a saída, procure a faixa, bebedouro. A palavra para a hora do xixi de Olinda é banheiro, mas quando Nicole precisa ir ao dela a palavra é toalet.
Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e Twitter. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.