No Recanto dos Pássaros, aposentado é "guardião” solitário de praça

Angelino Marafon, 69 anos, o Gaúcho, é um morador conhecido no Recanto dos Pássaros, em Campo Grande. Conhecido, admirado e, ao mesmo tempo, odiado. E tudo isso porque ele é o “guardião” da praça pública do bairro que, não fosse seus cuidados, seria, quem sabe, mais uma abandonada, largada no tempo.
O aposentado “linha dura” resolveu tomar conta do espaço, que considera a extensão da própria casa. Ele não quer a praça para si, nem almeja o título de “dono”. Cuida, apenas, e pede o mesmo dos frequentadores. Nada mais justo.
Como não gosta de ficar parado, todos os dias, de segunda a segunda, das 6h30 às 11h, o senhor se dedica à manutenção da área. “Tenho que varrer, limpar, cortar grama, matar formigas, cupim... fazer o que tem que ser feito”, contou.
Tem sido assim há pelo menos 10 anos, desde o tempo em que abriu uma lanchonete na praça. Ele usufrui do quiosque cedido pelo município, mas, em contrapartida, mantém a área sempre apresentável. “Todo mundo queria usar isso aqui, mas ninguém queria fazer nada”, disse, ao comentar da responsabilidade com a Prefeitura.
Mas Angelino não se contenta só em cumprir o acordo. Faz o que está acertado, mas vai além. “Noventa por cento das coisas que tem lá foi eu que plantei”, comentou, citando os pés de eucalipto, lima, limão, acerola, goiaba, caju e manga plantados ali.
Dá gosto ver a praça limpa, mas, para quem cuida, essa é uma tarefa que dá trabalho. Angelino sabe bem disso e, portanto, estabeleceu algumas “regras” aos visitantes.
“Se encontrou limpa tem que deixar do mesmo jeito; o parquinho é só para crianças de até 10 anos ou conforme orientação do fabricante; não pode usar drogas; não sou contra quem usa, mas que ache um local próprio porque não somos obrigados a sentir aquele cheiro”, citou. Quem não gosta, prosseguiu, são os “baderneiros”.
Tanto esforço rendeu ao aposentado reconhecimento dos moradores. Basta perguntar do Gaúcho para ouvir elogios. Até quem vem de fora “rasga seda” para o senhor.
“É uma pessoa que se dedica, cuida, procura melhorias junto à Prefeitura. É muito dedicado. Um exemplo”, disse o aposentado Antônio Carlos Santos Azambuja, de 56 anos, morador do Panamá, e mais um cliente fiel da lanchonete do Recanto.
Humilde, o “guardião” dispensa os títulos, mas diz que fica feliz com o retorno. “Eu tenho satisfação quando as pessoas chegam e falam que essa é uma das praças mais limpas de Campo Grande. Faço a minha parte”.