Superlotação crônica segue sem saídas que mudem futuro, denuncia sindicato
Faltou fazer investimento na área para suportar crescimento do Estado e de Campo Grande, diz sindicato

O Campo Grande News mostrou nos últimos dias que um paciente levou colchão inflável para esperar atendimento por horas, mas com algum conforto, enquanto um pai chamou a Polícia Militar porque não havia maca para a filha ficar em observação: duas situações que retratam a superlotação nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e CRSs (Centros Regionais de Saúde) da Capital. Eles estão assim desde o fim do verão, quando os vírus respiratórios começaram a circular mais.
RESUMO
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A superlotação crônica nas UPAs e CRSs de Campo Grande, MS, continua sem solução, segundo o sindicato dos médicos. Recentemente, casos de pacientes esperando em condições precárias chamaram atenção. Vereadores estão fiscalizando as unidades, mas enfrentam críticas por filmarem servidores. A prefeitura anunciou a contratação de mais médicos, mas o sindicato alerta que o problema é estrutural, devido ao crescimento populacional sem investimentos proporcionais na saúde. A falta de leitos e hospitais municipais agrava a situação, que pode piorar se não houver planejamento adequado.
A insatisfação está levando vereadores até os locais. Maicon Nogueira (PP) é um deles. O parlamentar disse hoje (4) que está fiscalizando diariamente três unidades por dia para "verificar a regulação de pacientes e a frequência dos médicos" porque o pedido chegou ao seu gabinete.
Fora a demanda sazonal, ele acredita que a superlotação é consequência também de problema com a escala de médicos. "Não vi folha de ponto, não vi biometria, não sei se já tem alguma normativa com relação a isso", falou.
O vereador não confirma denúncia de médicos ausentes durante as visitas, apesar da suspeita. Ele destacou somente comportamento dos servidores.
"Fui na terça-feira no CRS Aero Rancho e encontrei dois ou três médicos conversando no corredor, mais cinco pessoas dentro de uma sala com o pé no sofá e comendo biscoito, enquanto 50 pacientes aguardavam lá fora", ele disse.
Maicon adiantou que prepara um projeto de lei para apresentar à Câmara Municipal na semana que vem, propondo que a Prefeitura de Campo Grande seja obrigada a publicar a relação de médicos plantonistas das unidades, quantos plantões fizeram e quanto receberam por mês.
Quantidade e salários - A reportagem consultou alguns salários de médicos no Portal da Transparência da prefeitura, e também as remunerações de enfermeiros e técnicos de enfermagem, que compõem a maioria dos servidores da saúde e são também essenciais para agilizar o atendimento nas unidades. O resultado foram valores bastante parecidos e baixos, no caso dos profissionais da Medicina.
Um médico concursado teve remuneração bruta de R$ 7.584,76 em fevereiro deste ano e R$ 7.584,76 em janeiro. Outra médica que aparece na relação de servidores como "24 horas" e também concursada, recebeu R$ 8.429,79 nos dois mesmos meses.
Já entre enfermeiros, uma teve remuneração bruta até maior que a dos médicos consultados – R$ 8.669,54 em janeiro e R$ 10.754,32 em fevereiro. Enquanto isso, técnica de enfermagem consultada recebeu R$ 7.712,35 em janeiro e R$ 7.112,11 em fevereiro. Os três profissionais também são concursados.
A reportagem questionou a assessoria de imprensa sobre o total desses profissionais, as médias salariais e como são as escalas de trabalho nas unidades de saúde, mas não houve resposta até a publicação desta matéria. Foi possível obter apenas uma estimativa do contingente de servidores de três categorias junto ao Sinmed (Sindicato dos Médicos) e Sinte (Sindicato dos Trabalhadores Públicos em Enfermagem).
Nesta quarta-feira (2), a prefeita Adriane Lopes (PP) informou que 56 médicos temporários foram convocados na última sexta-feira (28) para reforçar o atendimento. Segundo Maicon, os vereadores foram informados hoje que 60 médicos serão contratados a partir da próxima semana. O Município não falou sobre os gastos extras com essas medidas.
Respeito aos servidores e crescimento da Capital - O presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul, Marcelo Silveira, discorda da postura que vereadores têm adotado de filmar a fiscalização deles nas unidades e interpelar servidores. "A gente vê em vários locais do Brasil os vereadores usando dessa situação para ficar postando em rede social, para ficar ganhando like. Like com a população desesperada?", questiona.
Nos casos em que o número de profissionais encontrados não é adequado, ele explica que a prefeitura deve ser cobrada sobre realmente haver número suficiente de profissionais escalados.
"Tem que verificar o que está acontecendo. Será que foram escalados realmente seis médicos, por exemplo, para estarem naquele plantão, naquele período? Ou não? Tem que ser averiguado com quem faz a escala, que é o Executivo", continua Marcelo.
O médico alerta que essas fiscalizações criam situações de desrespeito ao servidor, que já está com a saúde mental abalada devido às condições de trabalho. "Recai sempre no servidor porque é o servidor que está com a 'cara' ali, que está frente a frente com a população. O servidor que está no dia a dia ali na luta com a população", diz.
Marcelo defende que as superlotações enfrentadas são reflexo do desenvolvimento de Mato Grosso do Sul, que puxa o crescimento populacional em Campo Grande, enquanto não houve investimentos na saúde que acompanhassem essas mudanças.
Ele lembra que a Capital tem problema ainda mais grave, que é a falta de leitos e não haver hospital com governança própria da prefeitura.
Se você não cria novos locais para atendimento em uma capital que está em franco desenvolvimento, mesmo você criando um ente regulador para tentar colocar ordem nisso daí, você não vai conseguir colocar. Porque vai chegar uma hora que toda capacidade dos hospitais contratualizados vai se esgotar", fala.
O médico conclui dizendo que a situação pode ficar ainda pior.
"Esse é um problema que não é exclusivo da atual gestão, é questão de anos. As autoridades públicas não estão enxergando isso e preparando para o futuro e a situação vai piorar e vai piorar muito. A gente vai chegar numa hora que as pessoas vão morrer na frente ali porque não vai ter como colocar para paciente dentro, não vai ter como atender".
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