Bailarina desde os 4 anos, Cecília quer ganhar o mundo
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Ao ver Cecília Basseto Garcia executar com precisão e delicadeza os movimentos característicos do ballet, a sensação que a gente tem é a de estar de frente para uma grande bailarina, mesmo que o tamanho da garota prodígio esteja na contramão do adjetivo utilizado. Selecionada para integrar a nova turma da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, a única fora da Rússia, a menina, que mora em Campo Grande, agora quer ganhar o mundo.
No estúdio de dança onde treina, a complexidade do plié, demi-plié ou arabesque, por exemplo, ficam apenas na teoria dos nomes rebuscados. Na prática, os passos se descomplicam. Ganham vida, forma e leveza com as interpretações feitas por Cecília.
Tudo na pequena bailarina impressiona, desde as sapatilhas, que garantem equilíbrio na ponta dos pés, à maquiagem com aplicações em glitter, que iluminam ainda mais o semblante dela. O coque, no alto da cabeça, garante a sofisticação necessária.
Aos 9 anos, a três-lagoense vai estudar, a partir de 2013, na Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville, Santa Catarina, o colégio de ballet mais conhecido do Brasil.
O curso tem duração de 8 anos. Cecília terá aulas de dança clássica, prática cênica, ginástica específica, acrobática, dança popular histórica, educação musical e rítmica, repertório, folclore brasileiro, dança a caráter, contemporânea, teatro, piano, história da arte, literatura musical, dueto e história da dança.
No Brasil, a Escola Bolshoi, inaugurada em 2000, já formou 140 bailarinos. Deste total, 107 profissionais estão atuando em diversos países.
Seleção - A seleção foi disputada por 1,6 mil bailarinas, de 8 a 12 anos, mas apenas 16 conseguiram se classificar.
O teste, dividido em três etapas, foi realizado no último final de semana. A primeira parte consistia em uma avaliação médica-fisioterápica. Profissionais da saúde e de dança analisaram postura, estrutura, e habilidades físicas motoras, freqüência cardíaca e respiratória, percentual de massa corpórea, força, musculatura e articulações das concorrentes.
Na segunda fase, artístico-musical e cognitiva, os bailarinos foram avaliados em suas qualidades técnicas e artísticas, musicalidades, projeção cênica e desempenho intelectual e provas de português e matemática. A última etapa era uma avaliação artística.
Mudança de planos - Os pais, que deixaram tudo para acompanhar a filha, não foram autorizados a assistirem as provas. Somado o tempo total, nos três dias, só de avaliação foram mais de 8 horas. A família e a pequena bailarina só ficaram sabendo do resultado quando estavam no caminho de volta para casa. “Foi à 1h da manhã. Estávamos em Ponta Grossa”, contou o pai, o turismólogo Adalton Garcia Freitas, de 44 anos.
Ao lado da filha, Adalton não esconde a alegria e diz que está disposto a realizar o sonho da menina. A família vai se mudar para Santa Catarina. Não era o plano e ainda não há nada acertado por lá, mas o jeito é arriscar. “Vou começar do zero, mas não tenho medo. Seja o que Deus quiser”, disse.
A mãe, a jornalista Silvia Regina Basseto, de 37 anos, foi confiante à seleção de Joinville, mas não imaginava que dentre 1,6 mil candidatas, Cecília seria uma das selecionadas.
“Na hora que chegamos lá e vimos o nível nós gelamos. Eu falei que se ela não passasse a gente voltaria o ano que vem”, contou. Nas pré-seleções, relembrou, o pai foi quem mais sofreu. “Ele perdeu uns 10 quilos de tanto andar de um lado para o outro”, brincou.
A vitória da menina reforça a persistência dela, a paixão pela vida. Em 2009, a pequena bailarina, na época com 8 anos, sofreu uma pneumonia e passou 5 dias em coma.
O diagnóstico não era nada animador: derrame pleural. A chance de vida mensurada pelos médicos era de apenas 5%. “Quando eu vi ela daquele jeito eu fiz um propósito com Deus. Se ele me devolvesse ela eu nunca mais colocaria álcool na boca”, relatou o pai. Desde a alta da menina, Adalton nunca mais se entregou ao vício. “Para mim, ela é uma predestinada”, acrescentou.
Exemplo - Cecília se interessou pelo ballet aos 2 anos e passou a treinar aos 4. Hoje, diante das conquistas, é motivo de orgulho para toda a família e para professores da escola onde treinava, a Isadora Duncan, em Campo Grande.
Diretora da escola, Neide Garrido, de 59 anos, conta que a garota chamou a atenção desde as primeiras aulas, pela determinação, disciplina e condição física que apresentou. “É um talento nato”, resume.
O sucesso dela, pontuou, teve base na família, que a apoio e teve a sensibilidade de enxergar, logo cedo, a aptidão da garota. “Serve de exemplo, de referência“, afirmou.
Se depender da pequena bailarina, a cidade catarinense, conhecida pela dança, será apenas um trampolim para o mundo. “Até Joinville eu vou”, disse o pai. “Meu sonho é sair do país”, avisou a filha.