Doença de Chagas Futebol Clube
Matéria do programa Globo Esporte de 28/01/2011 informa que, enquanto a Seleção Brasileira sub-20 treinava no Estádio Máximo Carrasco, na província de Paucarpata, no Peru, o time de futebol dos Exterminadores de Chagas apresentava-se no gramado. Além de caçar barbeiros – mosquitos transmissores da doença de Chagas – os trabalhadores disputam peladas no estádio onde treinam os craques brasileiros. Os Exterminadores dizem que têm a esperança de um dia viver em um país melhor, sem o medo de serem picados pelos barbeiros.
A doença de Chagas é um problema sério em todo o continente latino-americano. Os barbeiros ficam alojados nas paredes das casas. Durante a noite eles saem dos esconderijos para chupar o sangue das pessoas e transmitir o agente da doença de Chagas, o protozoário Trypanosoma cruzi. Tudo isso continua acontecendo porque muita gente não foi informada sobre o perigo que o barbeiro representa para a saúde das pessoas.
É preciso alertar o governo brasileiro para a necessidade de continuar o combate ao barbeiro com tecnologias modernas de comunicação, informação e educação para a saúde. Esse trabalho não pode ser colocado em segundo plano, pois não há mais tempo para justificar a inércia que prejudica principalmente os necessitados de proteção, porque também lhes tem sido negada a informação.
Nos escritos dos padres jesuítas do século XVII, já havia sinais sugestivos de que a doença era uma das causas principais do subdesenvolvimento. Mas a doença de Chagas atormenta os habitantes dos países sul-americanos há muito mais que cinco séculos. Quando os aborígenes chegaram aqui eles ficaram expostos aos barbeiros, já entranhados na natureza há 90 milhões de anos. Por isso mesmo não é fácil o seu desentranhamento apenas com ações verticais e esporádicas. Além disso, o cidadão informado é o melhor agente de saúde!
Qual a explicação para a inércia que impõe ao chagásico o pesado ônus da orfandade social? Ao longo de séculos, a doença de Chagas foi estigmatizada pela elite arcaica como uma doença de pobre e, por isso mesmo, fora de moda! Hoje, a doença de Chagas está presente em todas as classes sociais: empresários, professores universitários, advogados, economistas, cientistas políticos e autoridades da República. Não obstante, o assunto não foi cuidadosamente posto numa perspectiva de relevância social e de educação para a saúde.
Para cada pessoa que morre de Aids no Brasil, morrem oito de doença de Chagas. A doença de Chagas é a doença infecciosa mais letal do Hemisfério Ocidental. Estima-se que ela mate 100 mil pessoas por ano. O ônus social é enorme: 6 bilhões de dólares de prejuízos decorrentes de "perdas na produtividade diária/ano". Isso é apenas a conta material.
O principal ônus da doença de Chagas é o quadro triste que avassala famílias cujos chefes (pai e/ou mãe) foram vitimados precocemente (geralmente entre 30 e 45 anos de idade). Famílias inteiras ficaram sem perspectiva de educação e de produção de riqueza, em decorrência da orfandade e perda de perspectiva de uma vida feliz.
Há necessidade de interromper o ciclo de transmissão da doença de Chagas. A comunicação, informação e educação para a saúde podem interromper este ciclo. Ao levar o problema para o público, será possível retirá-lo debaixo do tapete. O preconceito contra os chagásicos é prejudicial, causando dor e sofrimento recônditos.
Sem combater o barbeiro com tecnologias modernas, o problema aumenta com o crescimento da população. Até recentemente achava-se que a doença de Chagas não existia na Amazônia. Atualmente, sabemos que surtos agudos estão ocorrendo em famílias residentes de todos os Estados daquela região. O que preocupa é o fato de que os surtos agudos representam somente um pequeno alerta sobre muito mais que já existe na Amazônia. Para cada caso agudo que é reconhecido, existem centenas de outros que passam despercebidos. O chagásico tem o agravo no coração geralmente três décadas depois de ter adquirido a infecção aguda pelo protozoário Trypanosoma cruzi.
A doença de Chagas pode ser prevenida mediante campanha de educação/informação/comunicação, semelhante àquela feita para o combate ao vírus da Aids. A campanha de combate à transmissão do Trypanosoma cruzi pelo inseto-vetor (barbeiro) ou por transfusão de sangue (20 mil casos/ano no Brasil) deverá levar solidariedade a milhares de pessoas que sofrem a solidão do esquecimento. A gente não se pode deixar abater pelos incrédulos, que veem dificuldade em tudo. O Ministério da Saúde precisa fazer agora aqui algo que já teria sido feito no começo do século passado, se a doença fosse endêmica no Hemisfério Norte.
(*) Antônio Teixeira é professor titular da Faculdade de Medicina da UnB. Doutor pela Universidade de Cornell (NY), é diretor do Laboratório Multidisciplinar de Pesquisa em Doença de Chagas.
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