Quando casas eram iguais de Abadia, bêbado nunca acertava o endereço
Teve um tempo em que todas as casas na Moreninha 3 eram idênticas, mas agora só resta uma, a da dona Abadia
Quatro pessoas em uma casa de 32 metros quadrados não é tarefa fácil. Mas foi assim que Abadia Rodrigues da Silva viveu durante anos, dividindo a casa popular recebida em 1983 com os três filhos. Hoje, sua residência é a última original na Moreninha 3, de um tempo que bêbado caía no choro quando errava o endereço.
Essa história do choro parecia folclore, mas foi confirmada aos risos por dona Abadia. Naquele tempo, quando o mar de casinhas foi entregue, muita gente se confundia, especialmente quem exagerava nos botecos da região. “As casas eram todas iguais e branquinhas. Todo dia alguém batia na porta perdida. Muitos sentavam no meio fio e choravam”, afirma.
Abadia chegou às Moreninhas no começo de 1983, quando as chaves foram entregues ainda no governo de Pedro Pedrossian. Depois de meses, a espera pela casa própria foi sucedida por lágrimas. “Quando entrei aqui me emocionei, era um sonho ter uma casa. Naquela época era mãe solteira com três filhos pra criar”.
Trabalhando como empregada doméstica, cozinhando e limpando casas de famílias tradicionais em Campo Grande, Abadia criou os três filhos sozinha e não se arrepende de nunca ter se casado. “Nunca tive vontade. Papai também falava pra gente nunca apanhar de marido, que ele não criou suas filhas pra isso”.
Mas não existe solidão na vida da mulher que abdicou do casamento. As roupas masculinas bem passadas em uma das cadeiras de fio são do companheiro (namorado), que Abadia diz gostar há quase 40 anos. “Ele tem a casa dele e eu tenho a minha”, diz sobre a independência que cada um preferiu ter na relação.
Apesar de pequena, a casa abriga tudo o que dona Abadia usa no dia a dia. No quarto, o espaço é para cama de casal, cômoda, cadeiras de fio e televisão. A cozinha tem armário, fogão, geladeira e máquina de lavar roupa. Mas é preciso malabarismos e abrir mão de outros móveis para conseguir andar nos dois ambientes. “Antigamente tinha um guarda-roupa porque usávamos beliches. Mas com a cama de casal fica apertado”.
O sonho de Abadia nos últimos 39 anos era ter aumentado a casa, como fizeram os vizinhos. “Queria só mais um quarto, banheiro maior e uma varanda fresca”.
Mas com o salário de doméstica isso nunca foi possível, com a aposentadoria muito menos. Nos últimos anos, Abadia sofreu AVC e passou por uma cirurgia na coluna, foi preciso deixar de trabalhar e fazer esforço. O dinheiro que recebe é praticamente para se manter e comprar os remédios. Ela até fez um empréstimo no início do ano, mas o dinheiro foi todo para a escritura da casa, a construção de um muro e a troca das telhas. “Se eu não trocasse essa telha, na última chuva o teto teria caído na minha cabeça”.
O que sobrou de material, alguns tijolos e alguns quilos de areia, estão no quintal tomando sol e chuva. “Se um dia conseguir terminar de pagar meu empréstimo, quero construir minha varanda”.
Apesar da pintura desbotada, o muro sem acabamentos, a falta da varanda e os malabarismos para andar na casa pequena, nada faz dona Abadia sair da Moreninha. Pelo contrário, ela olha para casa com orgulho. O imóvel é símbolo de sua maior conquista. “Tem gente que fala se eu não penso em ir para outro canto, mas essa é minha casinha, meu canto. Eu amo a Moreninha, meus vizinhos. Aqui a gente tem paz”, finaliza.
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