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Comportamento

Há 30 anos, Jerônimo é o segurança simpático que virou patrimônio de shopping

Ele é o segurança mais antigo e conhecido pelos corredores; e ele ainda se emociona a chegada do Papai Noel

Thailla Torres | 16/10/2019 10:42
Há 30 anos, Jerônimo é o segurança simpático que virou patrimônio de shopping
Jerônimo é o segurança mais antigo em exercício do Shopping Campo Grande. (Foto: Kísie Ainoã)

Faça chuva ou faça sol, ele está ali, andando pelos corredores do shopping mais antigo da cidade, atento a cada detalhe, mas sem nunca negar um sorriso ou um “boa tarde”. Jerônimo Elias da Silva Junior é o segurança mais antigo do Shopping Campo Grande. Lá se vão 30 anos de histórias e lembranças.

O Lado B tentou, durante muito tempo, uma entrevista com o segurança que virou “patrimônio” para os mais antigos e está na memória afetiva de quem um dia foi criança e levou bronca ao correr descalço, tropeçando nos clientes. Ontem (15), a empresa finalmente abriu as portas, e Jerônimo topou falar sobre sua trajetória.

Depois de tanto tempo, ele ainda consegue rir ao saber que chamava a atenção das criancinhas. Mas também revela que chora com a chegada de cada comemoração natalina. “Os natais sempre me emocionam. Ver o sorriso e a esperança estampados no rosto de cada criança é inesquecível”, conta.

Com o colorido da árvore de Natal e a presença do Papai Noel, ele não segura a emoção — muito menos as lágrimas. “Eu me emociono e até choro. Já chorei em muitos natais”, lembra, sorridente.

Há 30 anos, Jerônimo é o segurança simpático que virou patrimônio de shopping
Apesar de disciplinado, a simpatia e carinho conquistou clientes e amigos nos últimos 30 anos. (Foto: Kísie Ainoã)

Mas o principal nessa história nem é o Natal. Aos 54 anos, até hoje, o que Jerônimo mais gosta de falar é sobre segurança e o amor que tem pelo ofício, desde que o shopping abriu as portas para o campo-grandense, em 18 de outubro de 1989.

E olha que o primeiro dia por ali não foi fácil. À época, lojistas e funcionários mal acreditavam que o lugar abriria na data prevista. Além da poeira, muitos detalhes ainda precisavam ser finalizados. Mesmo assim, a inauguração ocorreu e mexeu com o coração dos moradores — especialmente com o de Jerônimo. “Eu fiquei encantado, era algo muito grandioso para a época e estava ansioso com a chegada dele”, descreve.

Jerônimo se tornou segurança três meses antes da abertura. Foi contratado por uma empresa terceirizada e, só depois da inauguração, foi efetivado na equipe orgânica do shopping. “Eu tive a oportunidade de continuar, mas não imaginava chegar aos 30 anos de casa.”

A oportunidade surgiu por causa de seu porte físico, acredita. “Tornei-me segurança porque tinha uma boa estatura. Acho que isso contava muito na época para ser um segurança.”

Mas o homem alto, magro e com cara de feliz já precisou se esforçar muito para lidar com todo tipo de situação e, ao mesmo tempo, garantir que ninguém passe a perna na segurança. “Comecei como vigilante, depois fui inspetor, até chegar ao cargo de gestor de segurança. Mas fiz cursos, me profissionalizei, passei por muitos treinamentos, tudo voltado para essa área”, conta.

Ainda que o sorriso predomine no rosto, ele garante que a atenção e o “olho no olho” são o que impede a ação até dos mais espertinhos. “Olhar nos olhos é importante, e, se a pessoa tiver má intenção, você percebe na hora”, explica. “E, na minha opinião, a nossa maior arma é a palavra. Quando você conversa, traz uma palavra ou um sorriso, essas coisas fazem com que as pessoas se sintam mais à vontade em qualquer lugar.”

Há 30 anos, Jerônimo é o segurança simpático que virou patrimônio de shopping
Hoje ele ocupa o cargo de gestor de segurança. (Foto: Kísie Ainoã)

Em um país onde o negro sofre com o racismo que teima em machucar a todos, até mesmo uma criança, Jerônimo garante que nunca passou por esse tipo de situação e se sente feliz por, ao longo dos anos, ter visto outros negros conquistarem seu espaço, dentro e fora do shopping. “Eu fui criado de maneira tranquila e aberta quanto a isso, então aprendi a lidar, mas aqui eu nunca me senti assim por algum comportamento de cliente”, afirma.

No dia a dia da função, ele também não dá tréguas para a disciplina nem para a equipe. “Tem que saber se comportar, tem que saber como falar com qualquer pessoa, compreender as diferenças e até mesmo quando há necessidade de abordagem. Isso é essencial para um segurança. Eu cobro muito isso de mim”, explica.

Mas o que tem de disciplinado tem de carinhoso e simpático. Por isso, nem cliente estressado tira a paciência de Jerônimo, que garante nunca ter se envolvido em conflitos. Filho caçula e irmão de três mulheres, o carinho dentro de casa sempre foi rotina, e boa parte do que aprendeu com a família também é levado para o trabalho. “Muita coisa eu aplico aqui dentro. Uma delas é o respeito, o amor pelo que eu faço e a paciência. Isso tudo veio da minha família.”

Em 30 anos como segurança, surgiram ofertas para trabalhar em outros lugares. Jerônimo até manteve trabalhos paralelos nas horas de folga, mas, tempos depois, largou tudo para se dedicar exclusivamente ao shopping. Hoje, passa os dias ganhando amigos e “gerenciando”, diz, como quem se sente feliz com a trajetória. “Acho que eu nasci supervisor”, ri.

De segurança mais antigo a um dos mais reconhecidos pelos clientes, Jerônimo também conseguiu proporcionar uma vida melhor para a família. Casado há 32 anos, comemora ter quatro filhos e três netos, dos quais é impossível fugir de um abraço, mesmo durante o expediente. “Quando meus netos passeiam no shopping e me encontram, eu não escapo de um abraço apertado. Isso também me deixa feliz”, finaliza.

Na memória de muitos clientes, Jerônimo é um dos personagens de um documentário que será lançado nas plataformas digitais nesta sexta-feira, 18 de outubro, para comemorar as três décadas de existência do shopping, que também deu um novo sentido à cidade no final da década de 1980.

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Há 30 anos, Jerônimo é o segurança simpático que virou patrimônio de shopping
Jerônimo se sente feliz com a trajetória e os amigos que ganhou na profissão. (Foto: Kísie Ainoã)
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