Antigo centro cultural indígena, Oca virou depósito de carros e briga na Justiça
Palco de grandes celebrações de povos indígenas, agora abriga ferro-velho vizinho

Terreno onde já existiu centro cultural indígena e guarda um pedaço da história do povo nativo na Capital de Mato Grosso do Sul hoje é preenchido por carcaças. Foi invadido por um ferro-velho. A propriedade está localizada na esquina das ruas Uruguaiana e Rogério Casal Caminha, no Bairro Coronel Antonino, e possui duas casas e um quintal extenso.
Já não existe nem vestígio da "Oca" que era palco de grandes celebrações indígenas entre 1996 a 2005. Acabou em incêndio, nunca investigado pela polícia, apesar da suspeita de o fogo ser criminoso, ato de intolerância.
A reportagem do Campo Grande News esteve no local após receber denúncias da vizinhança, que concordou em conversar com a equipe sob a condição de não serem identificados, pois temem represálias.
Conforme apurado pela reportagem no local, o proprietário é um aposentado de 75 anos, parente da antiga dona - de origem indígena - que deixou o imóvel para a família com o intuito de que se tornasse um centro cultural.
No local, foi observado que os carros, a maioria sem portas, para-choques e diversas outras peças, ficam amontoados, e com "linha" divisória entre o local invadido e a casa do idoso.
A situação preocupa os moradores, pois apesar de a grama ser aparada quinzenalmente e os responsáveis pelo ferro-velho não deixarem acumular lixo, as carcaças estão apodrecendo por conta do clima, e não há garantias de que não exista criadouro de mosquitos e outros bichos no meio das carcaças.
Uma mulher comentou com a reportagem que já tentaram fazer um abaixo-assinado para expulsar o ferro-velho do local, mas apesar de muitos concordarem que incomoda, não obteve sucesso nas assinaturas. "Só que ninguém assina".
Retomada - A reportagem apurou que já haveria ação de desapropriação, mas o dono do imóvel não foi localizado.
Durante muitos anos, o local foi sede do Centro Social de Cultura Nativa de Mato Grosso do Sul, onde aconteciam eventos culturais e profissionais em prol da população indígena. A "Oca" acabou destruída em incêndio e, posteriormente, se tornou moradia de membros da família da antiga proprietária e aos poucos foi abandonado.
O pedido de reintegração de posse foi protocolado em 2022, após os responsáveis pelo ferro-velho localizado no imóvel vizinho se apropriarem do espaço para instalar um desmanche de automóveis. O documento consta que foi feita tentativa amigável de reaver o terreno, mas as partes não entraram em acordo.

História apagada - Pessoas ouvidas pela reportagem na região relembram que o terreno décadas atrás foi palco de grande celebrações e manifestações indígenas. Berço de uma rica cultura, hoje em dia se encontra abarrotada de ferragens, portas quebradas e veículos depredados expostos a céu aberto.
Em 2020, a reportagem do Campo Grande News entrevistou o guarani-kaiowá Sander Barbosa, que atuou como secretário no denominado Centro de Cultura Nativa de Mato Grosso do Sul.
Na ocasião, ele comentou que o local funcionava como abrigo para cursos profissionalizantes, confecção de cerâmica e demais artesanatos tradicionais dos terena, guarani-kaiowá e kadiwéu e também abrigava uma pequena biblioteca. Desta vez, ele não foi encontrado.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.