Torneio é disputa esportiva, mas também exercício de resistência ao machismo
Mulheres participam de campeonato na Capital e revelam como, em 2019, ainda enfrentam dificuldades para praticar esporte
Solidariedade com quem mais precisa e resistência ao cenário de machismo ainda predominante nas quadras. Esses dois pontos uniram, na manhã deste domingo (22), mais de 80 mulheres no Cras (Centro de Referência de Assistência Social) do bairro São Conrado, em Campo Grande, no 1º Torneio Solidário de Futsal Feminino.
A ideia de transformar o hobby em uma ação concreta de solidariedade surgiu em um grupo de WhatsApp formado por 45 mulheres da Igreja Batista Peniel que, semanalmente, se reúnem para jogar futsal em praças públicas da cidade.
Uma das organizadoras do evento, Mayara Capecci, explicou que, de tanto ver famílias passando necessidades, o grupo resolveu aliar o esporte com a questão social. ''Começamos a idealizar e, depois de um torneio, colocamos isso em prática", disse.
Para que o evento fosse realizado, a frase ''a união faz a força'' foi colocada em prática. O espaço para a realização do torneio foi cedido, as premiações doadas e os juízes também não cobraram para apitar os jogos.
As inscrições foram 10 kg de alimentos não-perecíveis por equipe. Neste primeiro torneiro, 16 times participaram da competição e tudo o que for arrecadado será doado para famílias carentes por meio do Instituto Atos de Amor.
Outro lado - Além de praticar a solidariedade, a união das mulheres nas quadras também é uma resistência ao machismo ainda predominante.
Gabriela Tavaris, 24 anos, já sentiu várias vezes na pele o peso de ser mulher em quadra de futebol. Há cerca de três meses, ela e as amigas chegaram ao Parque do Sóter e ocuparam uma quadra. Quando estavam se organizando para dar início a partida, o espaço foi tomado por um grupo de homens. ''Disseram que queriam jogar e que nós deveríamos sair. Um deles chegou a dizer que era uma questão de honra porque era um espaço dos homens'', lembrou.
Segundo Gabriela, o grupo de homens chegou a sentar na quadra para impedir que elas jogassem. ''O jogo de futebol em si ainda tem essa linha machista. A ideia de ser um esporte voltado para o homem ainda é um pensamento muito enraizado nas pessoas", disse.
Fora da competição deste domingo devido a uma lesão no pé, a estudante Gabriely Magalhães, 25 anos, fez questão de ir ao Cras dar força às colegas no torneio. ''Além do hobby é um ato de resistência para que as mulheres joguem o esporte que quiserem e ocupem os lugares públicos. Campo Grande é uma cidade conservadora, sempre tentam nos intimidar e não respeitam nosso espaço. Estamos resistindo", ressaltou.