A bailarina, o saco plástico e um monte de gente sem entender nada no Centro
Em pleno meio dia começa mais uma intervenção urbana no calçadão da Barão do Rio Branco. “Bom, pelo menos a gente para um pouco de correr”, diz a cabeleireira Ivone, que passou pelo Centro para tirar fotos 3X4.
Só por isso o programa já vale, concorda a gerente de loja que foi até à lanchonete da esquina buscar o salgado que vai servir de almoço. “Aqui todo mundo passa correndo para tudo, nem olha na cara dos outros”, comenta Suzane.
As pessoas passam tão desacostumadas a olhar para o lado, que algumas quase tropeçam na bailarina Viviane Madu, posta no meio da calçada, de roupas claras. É quase uma camuflagem, não fosse a “bagagem” nas costas, com espelho dependurado e dois megafones.
A pernambucana roda o Brasil com “Daquiprali”, com projeto financiado pelo Ministério da Cultura, falando de dança sem abrir a boca e nem sequer usar música. O único som audível é do burburinho no comércio e do vai e vem das pessoas.
Os movimentos lembram os caboclos de lança, personagens do Maracatu que simboliza a luta dos trabalhadores das lavouras de cana de açúcar.
“Se falasse isso antes para a gente, era mais fácil entender”, reclama a estudante Janiara, que ao lado da mãe parou para ver o que provocava uma pequena aglomeração na calçada.
O programa fica mais engraçado quando um senhor, com sotaque nordestino, outro megafone em punho e a indumentária de mesmas cores da bailarina chega ao local da dança falando palavras religiosas.
Quem vê, não sabe se o homem faz parte do espetáculo ou é um maluco tentando reforçar as fileiras da igreja pregando pelo Centro. O senhor de barba longa passa gritando, mal olha para a bailarina no chão e segue, como se não tivesse visto nada de diferente. Morador do Jardim Columbia, o homem confirma: “Nem reparei em nada”.
“É um doido, não faz parte da dança não”, ri Laudinéia Campos. Mãe de dois, ela levou Luis, de 7, e Suzane, de 5, para fazer compras e de brinde levou a apresentação.
A menina, assustada no início, escondida nas pernas da mãe, aos poucos vai se soltando e avalia. “Acho que é uma bailarina louca”.
É o que mais pensam os que passam por Viviane, já enrolada em um pedaço enorme de plástico. “Agorinha ela tava se retorcendo ali no chão, pensei que tava passando mal. Mas é só doida mesmo, só isso. Agora ta colocando árvore na cabeça”, narra com cara de espanto seo Joaquim, de 80 anos.
Depois da experiência com o público de Campo Grande, a produtora do espetáculo, Vânia Medeiros, diz que é assim mesmo. Em alguns lugares, as pessoas chegam a dançar com Viviane, mas em outros a maioria pensa que é loucura.
Amanhã, o espetáculo será no mesmo horário na esquina da Rua 13 de Maio com Avenida Afonso Pena