Campo Grande tem público para ópera e merece teatro municipal, avalia diretor
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Francisco Mayrink não considera difícil "fazer" ópera em Mato Grosso do Sul, nem em Campo Grande, terra que exporta sertanejos a todo o Brasil. Para o diretor de cena de Minas Gerais - que está na cidade dirigindo a ópera Cavalleria Rusticana, a Capital tem sim público para o gênero e capacidade para grandes montagens e é por isso que merece ganhar um teatro municipal.
"É o que falta. Um teatro para mil e duzentas pessoas, no mínimo", argumentou. Segundo ele, o mais difícil Campo Grande já tem: gente empenhada em expandir o estilo e levar música de qualidade à sociedade. "O desafio é de quem, aqui na terra, está produzindo e abrindo espaço", avalia.
O que falta, declarou, é investimento e um olhar mais atento do poder público. "A cultura é tão importante e obrigação do Estado como a saúde e a segurança pública. Isso faz o cidadão", afirmou.
A Capital, criticou, não tem a tradição do patrocínio de empresas. Fora isso, o investimento público no setor fica muito aquém das expectativas. Mayrink acredita que o Estado pode se tornar um polo cultural, mas para que isso aconteça é preciso haver mudanças.
Para o diretor, a repulsa que algumas pessoas sentem quando ouvem falar de ópera tem mais relação com um conceito pré-estabelecido do que com o próprio gênero.
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Muitas vezes, afirmou, essa resistência está relacionada à formação cultural e até mesmo ao nível social. "São pessoas que não tiveram acesso", explica. Daí a importância de desmistificar a ópera, quebrando o aspecto elitista.
O diretor, que já montou óperas em várias cidades brasileiras - e nos locais mais inusitados como campo de futebol, salão paroquial e porta de igreja -, acredita que o gênero musical é a forma de arte mais popular e justifica: "Ninguém pode dizer que ópera não é coisa do povo. Tem a dança, tem a música e tem a voz, que é a coisa que tem empatia mais imediata com alguém".
O conceito de que espetáculos de ópera é coisa de elite ou de grandes cidades precisa ser desmistificado, pontua o diretor. "A gente está provando que ópera pode ser feita fora do eixo Rio-São Paulo", disse. "Basta fazer. O público existe", completa.
Perfil - Mineiro da Capital, Francisco Mayrink é músico, produtor cultural e diretor de cena. Por 11 anos foi regente e diretor artístico do Coral da Refinaria Gabriel Passos - Regap, em Belo Horizonte, além de diretor da OSMG (Orquestra Sinfônica de Minas Gerais), de 1978 a 1991.
Por três anos foi diretor de promoção artística da Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Mayrink assina a direção de mais de 80 montagens nos mais importantes teatros brasileiros.
Em 2004, dirigiu a estreia mundial da ópera "Aquiry - a luta de um povo", do compositor acreano Mario Lima Brasil. Também dirigiu a montagem ao ar livre de "Madame Butterfly", com a soprano japonesa Eiko Senda.
Entre os seus últimos trabalhos destacam-se "O Guarani", no teatro Castro Alves, em Salvador, na Bahia e "La Traviatta", encenada no Teatro da Paz, em Belém, há 2 anos.
Em Campo Grande, Mayrink participou, em 1996, do projeto "Viva Ópera". No mês passado dirigiu a ópera "La Traviatta" formada pelo coral do Sindate (Sindicato dos Agentes Tributários de Mato Grosso do Sul).